Quinta-feira, Dezembro 09, 2004

ad substantiam

A curva do tempo no espelho do mar, o beijo do vento fará a onda quebrar. O mesmo vento num outro tempo deposita o beijo no areal. Outra esta curva do tempo quase real
A ruga que o vento imprime no rosto do mar faz do rosto dos velhos um oceano ímpar.
A curva do tempo é linear para todos; sendo tangente no nascimento e na morte de cada um de nós. A curva do tempo não tem caminhos para contornar, por entre ela, através se exprime.
A curva do tempo é a equação matemática que determina milimetricamente a distância das estrelas, e a radiação são ondas luminosas. A curva do tempo não se desenha, propaga-se.
Cada gota de água traz em si a curva do tempo, a cadência da chuva ou da torneira que pinga, sempre cede sob o seu peso, desenha a curva do tempo.
As lágrimas propagam-se pelo rosto.
A tensão superficial dos líquidos demonstra e valida a curva do tempo, nem mais uma gota.
A curva do tempo é uma das coisas que amo no teu corpo.
Breves inclinações, ladeiras íngremes, derrames visuais da curva do tempo, segmentos aprisionáveis de um todo imperceptível.
A curva do tempo demonstra-se matematicamente, o “fenómeno” da gravidade, a matéria cede perante e sob ela, e a curva do tempo se conjuga.
A curva do tempo sob os teus pés na laje gasta dos cafés.
A curva do tempo sobre a laje gasta dos cafés na abóbada celeste entre dois horizontes tão longínquos quanto a vista alcança.
A terra não é redonda, cede à força da gravidade que é uma forma da curva do tempo. A terra é plana e o tempo gira.
Quantas voltas deste tu ao Sol, quantos segmentos dessas voltas exprimem o passar do tempo.
Crês agora na curva do tempo?

Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Esta velha angustia,
Esta angustia que trago ha seculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lagrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estylo de pesadello sem terror,
Em grandes emoções subitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar-entre,
Este quasi,
Este poder ser que...,
Isto.

Um internado num manicomio é, ao menos, alguem.
Eu sou um internado num manicomio sem manicomio.
Estou doido a frio,
Estou lucido e louco,
Estou alheio a tudo e egual a todos:
Estou dormindo disperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim...

Pobre velha casa da minha infancia perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia socegado sob o teu tecto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, a por aquelle manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de Africa.
Era feiissimo, era grotesco,
Mas havia nelle a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crêr num manipanso qualquer –
Jupiter, Jehovah, a Humanidade –
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?

Estala, coração de vidro pintado!



16/6/1934 Álvaro de Campos