Terça-feira, Junho 13, 2006

Epístola I de Correia Garção:


"Não busques pensamentos esquisitos,
Em denegridas nuvens embrulhados;
Não tragas, não, metáforas violentas,
Imitando esse corvo do Mondego,
Que entre os cisnes do Tejo anda grasnando;"

Lux Aeterna


Nascido a 28 de Maio de 1923 na Transilvânia (romena desde 1920) de pais judeus húngaros, Ligeti estudou primeiro em Cluj e depois em Budapeste, na Academia Franz Liszt, com Véress, Fárkas e Bárdos. O pai e o irmão morreram em campos de concentração; ele escapou por pouco aos trabalhos forçados. Falhada a revolução de 1956, emigra em Dezembro desse ano para a Áustria, tornando-se cidadão deste país anos depois. De 57 a 59, trabalha nos estúdios de música electrónica da WDR de Colónia, onde conhece Stockhausen, Boulez, Kagel. Em 1960, Apparitions inscreve o seu nome na galeria das vanguardas, que Atmosphères (1961) virá reforçar. Ligeti irá leccionar em Darmstadt, mas, avesso a todas as normatizações, estranho a qualquer dogmatismo e amante, sempre, da intocável liberdade criativa, afasta-se da vanguarda pós-serial e empreende, sózinho, o seu caminho.Um caminho fascinante e multifacetado, aventuroso e sem cedências, experimental e sedutor. Que conquistou Stanley Kubrick, o qual em 1968 vai usar (sem autorização do autor) excertos de Atmosphères, do Lux aeterna e do Requiem para o seu 2001-Odisseia no Espaço. É a revelação ao grande público do autor e da técnica "micropolifónica" empregue nessas obras. No final de 60, essa técnica cede o passo às polirritmias complexas (permanecerão um foco de interesse até à sua última fase), depois sobrevém um estilo mais linear, que recupera certos elementos da gramática tonal e, por fim (ritmo como princípio estrutural), vai "beber" às percussões centro-africanas e caribenhas. Qualquer que fosse a técnica, Ligeti detinha um "cosmos sonoro" reconhecível e a "sua" vanguarda soava familiar. Foi isso que fez dele um grande.