Domingo, Novembro 26, 2006

Que é do mar se os rios se recusam?



Gustav Klimt - Der Sumpf (1900)
(…)

Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre. Miserável consolo que só os Suíços enriquece...
Noites há, em que, sentado à lareira, no quarto mais resguardado de todos, sinto subitamente a morte cercar-me: no fogo, nos objectos pontiagudos que me rodeiam, no peso do tecto e na massa das paredes; na água, na neve, no calor, no meu sangue. Pergunto-me então o que vem a ser a nossa muito humana sensação de segurança, e percebo que não passa de um consolo para o facto de a morte ser o que há de mais próximo à vida. Pobre consolo, que não cessa de nos recordar o que desejaria fazer-nos esquecer!
Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este, retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei — a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de urna forma de me consolar da solidão. Risível consolo — que apenas me torna cinco vezes mais pesada a solidão.
Nesse animal que, veloz, atravessa a clareira, sou por vezes capaz de ver encarnada a liberdade e ouvir uma voz que me insinua: «Vive com simplicidade, frui do que desejas e não temas as leis»! Excelente conselho. Mas de que se trata senão de uma forma de consolo para o facto da liberdade não existir? Impiedoso consolo — para quem sabe que o Homem levou milhões de anos para não conseguir ser senão um lagarto, podre de indiferença!
Quando, por fim, me apercebo que esta terra é uma vala comum, onde Salomão, Ofélia e Himmler repousam lado a lado, concluo que tanto o crápula como a infeliz têm o mesmo fim que o sábio. Por isso, para uma vida falhada, a morte pode tornar-se numa forma de consolo — e bem atroz, sobretudo para quem na vida queria encontrar forma de vencer a morte.

Não possuo filosofia, em que possa mover-me como o peixe na água ou o pássaro no céu. Tudo em mim é um duelo, uma luta travada a cada minuto da vida entre falsas e verdadeiras formas de consolo. Umas não fazem senão aumentar a impotência e tornar-me mais fundo o desespero, outras são fonte de temporária libertação. Falsas e verdadeiras! Deveria antes dizer verdadeira, pois só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.
Mas a liberdade começa na escravidão e a soberania na dependência. O sinal mais vivo da servidão é o medo de viver. O definitivo sinal de liberdade é o facto de o medo deixar espaço ao gozo tranquilo da independência.
Dir-se-á que preciso de ser dependente para conhecer o gozo de ser livre! É certamente verdade. À luz dos meus actos, percebo que toda a minha vida parece não ter tido por objectivo senão construir o seu próprio infortúnio: sempre me escravizou o que devia tornar-me livre.
Outros homens têm outros mestres. A mim o talento torna-me escravo ao ponto de não ousar em pregá-lo — tal é o medo de o ter perdido. Mais: subjugo-me de tal modo ao meu nome, que mal me atrevo a escrever uma linha, não vá esta manchá-lo. E, quando se instala a depressão, é dela que sou também escravo. O meu maior desejo é retê-la. O meu prazer mais forte, sentir que tudo o que valho residia no que julgo ter perdido: essa capacidade de gerar beleza a partir do que é em mim desespero, desgosto e fraqueza. Com amargo prazer desejo ver ruir o que arquitectei e ver-me, eu também, envolto na neve do esquecimento. Mas quê? A depressão é urna boneca russa, e na última boneca estão a faca, a lâmina de barbear, o veneno, as águas profundas e o salto para um grande abismo. De todos esses instrumentos de morte me torno escravo. Perseguem-me como cães, a não ser que o cão seja apenas eu. Parece-me então ser o suicídio a única prova da liberdade humana.
Porém — não sei ainda de onde nem como — sinto que se aproxima o milagre da libertação. E a eternidade, que há bem pouco me assombrava, testemunha agora este acesso à liberdade: esta descoberta súbita e simples de que ninguém, nenhum poder, nenhum ser humano, tem o direito de me forçar ao ponto de secar em mim o desejo de viver.

Que é do mar se os rios se recusam?

(…)




stig dagerman
a nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer


A culpa é sentirmo-nos culpados, e não um resultado dos crimes cometidos; o ser inocente é alegre, feliz, e não deixa, seja em que caso for, que os acontecimentos perturbem a sua calma e a sua paz. É por isso que considero que a justiça erra quando executa os menos em vez dos mais culpados, quer dizer quando executa os criminosos e não aqueles que sentem que têm no coração a culpa do mundo. Isso equivale a executar crianças por acções que cometeram no escuro quando ignoravam tudo acerca do escuro e das reacções que provoca no funcionamento dos corpos. Uma vez que são culpados apenas os que se sentem culpados, seria necessário suprimir a justiça distribuitiva de castigos e substituí-la por uma justiça executora, porque ao fim de algum tempo aquele que a culpa mortifica já só aspira a morrer, a morrer pelas faltas do mundo como pelas suas próprias faltas, e pode sem a mínima hesitação, sim, sem a menor angústia de morte, uma vez que nada tem a esperar agora que tocou finalmente o fundo do mundo, pedir à justiça a sua pena de morte - e nunca outra cabeça se curvará mais graciosamente do que a sua por baixo da guilhotina, nunca colar algum terá acariciado a garganta de uma mulher com tanta delicadeza como a da corda ao aflorar-lhe o pescoço.


Stig Dagerman, in 'A Ilha dos Condenados'

Segunda-feira, Novembro 13, 2006

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

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Alexandre O'Neill

Sábado, Novembro 11, 2006

alguém que não eu
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Confinado aos contentamentos das quatro paredes sépia da vida. Indulgente às horas compassadas pela bradicardia de uma tempestade de silêncios, só teus. Mesmo num dia limpo escarificas sob a máscara opalina de indigente coroado. Vestes teias de fel dissuadindo o paladar das escassas ilhas naufragadas aos teus olhos.
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Achas tudo em nada e colhes pequenos nada em tudo, assim, como quem palpita noites pardas em bocas alvas, bolsa louvores de mel ao vento incerto. Corres, delicados, quase apáticos os anseios e fomentas deliciado o acerbo inato dos outros.
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E eu assisto calada…
Recolho divertida para um fio as contas dos teus sorrisos e das tuas subtilezas. Rendadas como lava fria, banhadas em lampejos de melancolia… Escassilhos que aos meus olhos são de uma doçura térrea e narcotizante.
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Saio à rua em busca do tempo em que não adivinhava os fragmentos de uma paixão rendida a esses sonhos de crisálida. Contou-me o vento que um dia lento e longo, algo ai morou, em forma de corpo desperto, botão de flor irascível, pano cru que bordavas. Falou-me de verdades cristais, ácidas manhãs no depois, de janelas abertas em neblinas de estrelas, de uma casa vazia repleta de ti...
Invejo as horas de lábios perdidos, de olhares fundidos, de confiança.
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Hoje, trazes no bolso uma orquídea amamentada, um beijo que não deste e um bilhete de ida, para o dia em que nos teus braços de árvore desposada com o rio, deixe de fluir a seiva de tigre ferido.
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Oxalá fosse eu, mas não sou eu…
Oxalá alguém forre de veludo essa língua pétrea! Métrica! Te agite essa acroase… Oxalá alguém pinte um sorriso sereno na gravidade que constróis no rosto. Te salpique a pele opaca de purpurina e te consuma cada centelha de vida. Oxalá alguém te banhe numa chuva de luz! Te dê um dia feliz!
Oxalá fosse eu, mas não sou eu… Alguém que não eu...




"a solidão escorre pelas paredes esboroadas dos corredores. mas não me posso queixar, foi minha decisão de voltar a viver na casa. conheco-a milímetro a milímetro, passei a considerá-la como um orgão do meu corpo. absorvo-lhe o silêncio e, de tempos a tempos, visito o quarto escuro onde guardo o sofrimento dos dias doentes.desconheço o nome da ave que pia durante a noite.quando era criança julgava que a lua era feita de açúcar sentava-me no poial, olhava a roupa estendida a secar mover-se na brisa e os hibiscos vermelhos tremendo no fogo da lua cheia. ficava muito quieto, esperava que a noite se tornasse mais densa, misteriosa, e deixasse cair fios prateados sobre o jardim. acreditava que, um dia, a lua derreteria e todo o jardim se transformaria numa imensa doçaria. então erguia os olhos para o negrume salpicado de astros, sentia-me ficar adulto. sentia-me crescer por dentro e por fora. no dia seguinte deixei de jogar ao berlinde.as noites e os dias eram tristes, e nada acontecia, nada. às vezes simulava esperar um amor, um amor qualquer, mas só conseguia ouvir o ladrar dos cães. enchia os pulmões com o perfume estonteante das glícinias, suspirava, mas nunca conseguia ouvir os passos de alguém que se aproximasse. deixei de esperar e hoje sei que amei muito pouco, e muito mal..."


Al Berto - O medo
"Aí residia toda a sua felicidade de viver e de morrer. Compreendia que ter medo daquela morte que ele encarara com uma angústia de animal era também ter medo da vida. O medo de morrer justificava um apego sem limites a tudo o que é vivo no homem. E todos aqueles que não tinham praticado os gestos decisivos que enobrecem uma vida, todos aqueles que temiam e exaltavam a impotência, todos tinham medo da morte, pela sanção que ela imprime a uma vida de que sempre tinham ficado distantes. Não tinham vivido suficientemente, nunca tinham vivido. E a morte era um gesto que priva para sempre o viajante que procurou em vão acalmar a sede. Mas, para outros, a morte era o gesto fatal e piedoso que tudo apaga e tudo nega, que sorri de igual modo à aceitação, e à revolta.".

Albert Camus - A morte feliz

Sexta-feira, Novembro 10, 2006




(Bella mia fiamma, addio!
Non piacque al cielo di renderci felici.
Ecco reciso, prima d’esser compito,
quel purissimo nodo,
che strinsero fra lor gl’animi nostri con il solo voler.
Vivi! cedi al destin! cedi al dovere!
Della giurata fede la mia morte t’assolve;
A più degno consorte… oh pene!
Unita vivi più lieta e più felice vita.
Ricordati di me, ma non turbi d’un infelice sposo
la rara rimembranza il tuo riposo!)


Minha bela paixão, adeus!
Não agrada ao céu fazer-nos felizes.
Eis que foi interrompida, antes de terminada,
aquela puríssima forma,
que reúne as nossas almas e o nosso querer.
Vive! Cede ao destino! Cede ao dever!
A minha morte desobriga-te do juramento;
A um consorte mais digno… oh, dor!
Vive, unida, uma vida mais alegre e mais feliz.
Lembra-te de mim, mas que a recordação de um
esposo desventurado nunca perturbe o teu repouso!

Segunda-feira, Novembro 06, 2006


Amanita Muscaria
Tem sido utilizado por muitos artistas e, tradicionalmente, figurado nas ilustrações de estórias e contos infantis de autores famosos, principalmente de origem europeia. Nessas estórias o cogumelo é, via de regra, associado a figuras de fadas, gnomos e duendes dos bosques e florestas. Entretanto, embora de aparência inocente e aspecto apetitoso, quando ingerido pelo homem ou animais domésticos, o cogumelo é tóxico. Dependendo da quantidade ingerida é capaz de induzir alterações no sistema nervoso, levando a alteração da percepção da realidade, descoordenação motora, alucinações, crises de euforia ou depressão intensa. Espasmos musculares, movimentos compulsivos, transpiração, salivação, lacrimejamento, tontura e vômitos são também sintomas referidos na literatura.