Como as palavras contadas de quem encontra o esperado fim, são breves os momentos em que a nossa vista repousa sobre a inevitabilidade da vida de Ivan Ilitch. A sua morte porquanto, dura longa além no espírito, recuperando os sentidos e o sentir de quem a espera, vive, inveja ou quer esquecer.
Nada mais certo, comum e inevitável (ainda assim mundanamente ignorado) do que esquecer quem morre. Necessário e incerto é o momento, e a espera, longo e penoso é o caminho da vida e aonde nos conduz, pejado dessa mórbida lembrança, acaso recortada no quotidiano dos vivos, pela dor da partida. E aos que ficam acentua-se a condição limitada e finita da existência humana.
Recupera-se a sua vida, perante o inefável galgar da morte, nos seus diversos modos ou escolhas narradas. Como criança e estudante vive no instante e não conhece outro fim na vida senão gozar o momento que passa, céptico e diletante. Encarna depois na maioridade as regras universais do dever, como juiz e trabalhador consciencioso, marido e pai devotado, pouco flexível, prisioneiro das idéias acabadas, e onde se crê um cidadão exemplar. Até que o atinge a Dor e deixa de estar submetido às regras gerais, aí onde nos abandona e o abandonamos, e passa a ser para a Dor e perante ela como um escravo. A sua relação com a Vida deixa de se traduzir em conceitos e regras gerais, convola-se antes mas numa inspiração fora do universo da razão, sem nenhuma finalidade ética. Num progressivo afastamento, Ivan vai deixando de estar entre nós, como a vida vai deixando de estar nele. Substitui-o a Dor. E de ambos nos queremos ver livres; dele e dela com ele.
Ele que decretou a sua solidão, a Dor que lha impõe, e nós que o abandonamos. Todos imersos numa vontade e desejo de morte sentimos, quando tudo termina, o alívio dos tementes, a graça dos impotentes, perante o último mistério. Revelação de que estamos vivos. Congratulem-se os crentes.
Domingo, Maio 17, 2009
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
0 comentários:
Enviar um comentário