Como as palavras contadas de quem encontra o esperado fim, são breves os momentos em que a nossa vista repousa sobre a inevitabilidade da vida de Ivan Ilitch. A sua morte porquanto, dura longa além no espírito, recuperando os sentidos e o sentir de quem a espera, vive, inveja ou quer esquecer.
Nada mais certo, comum e inevitável (ainda assim mundanamente ignorado) do que esquecer quem morre. Necessário e incerto é o momento, e a espera, longo e penoso é o caminho da vida e aonde nos conduz, pejado dessa mórbida lembrança, acaso recortada no quotidiano dos vivos, pela dor da partida. E aos que ficam acentua-se a condição limitada e finita da existência humana.
Recupera-se a sua vida, perante o inefável galgar da morte, nos seus diversos modos ou escolhas narradas. Como criança e estudante vive no instante e não conhece outro fim na vida senão gozar o momento que passa, céptico e diletante. Encarna depois na maioridade as regras universais do dever, como juiz e trabalhador consciencioso, marido e pai devotado, pouco flexível, prisioneiro das idéias acabadas, e onde se crê um cidadão exemplar. Até que o atinge a Dor e deixa de estar submetido às regras gerais, aí onde nos abandona e o abandonamos, e passa a ser para a Dor e perante ela como um escravo. A sua relação com a Vida deixa de se traduzir em conceitos e regras gerais, convola-se antes mas numa inspiração fora do universo da razão, sem nenhuma finalidade ética. Num progressivo afastamento, Ivan vai deixando de estar entre nós, como a vida vai deixando de estar nele. Substitui-o a Dor. E de ambos nos queremos ver livres; dele e dela com ele.
Ele que decretou a sua solidão, a Dor que lha impõe, e nós que o abandonamos. Todos imersos numa vontade e desejo de morte sentimos, quando tudo termina, o alívio dos tementes, a graça dos impotentes, perante o último mistério. Revelação de que estamos vivos. Congratulem-se os crentes.
Domingo, Maio 17, 2009
Quinta-feira, Maio 07, 2009


"Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?
Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...
Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...
O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser"
Alexandre O'Neill
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